22
MAIO
2020

DOM LUIZ RICCI – Mortes naturais e/ou evitáveis?

Desde 2003 tenho pesquisado sobre o conceito “mistanásia”– morte evitável e injusta, cunhado em 1989 pelo bioeticista brasileiro Padre Marcio Fabri dos Anjos. Diante do cenário atual tenho me perguntado, de modo recorrente e orante, se as mortes por conta da Covid-19 são todas “naturais” e/ou “evitáveis”? Naturais e evitáveis! Natural porque esse vírus é fortemente destrutivo. Mesmo com a melhor oferta de tratamento e cuidados intensivos, muitos pacientes infelizmente vão a óbito, com idades variadas e sem pertencer ao “grupo de risco”. Outras não são naturais e sim evitáveis porque muitos dos que morreram infelizmente não tiveram acesso ao atendimento digno, por falta de leitos, médicos e investimentos que deveriam ser realizados a longo e curto prazo. Trata-se da mistanásia, da morte evitável, sobretudo do pobre e vulnerado.
Sabia-se que o Sistema de Saúde poderia entrar em colapso, como ocorrera em alguns países. Contudo, se sabíamos, o que fizemos? Muito do que foi prometido, ainda não foi entregue. Por essa razão urge distinguir o mal natural causado pelo vírus, do mal moral gerado pela ação ou omissão deliberadas das autoridades competentes. As questões éticas que emergem são: Quantas mortes aconteceram exclusivamente em decorrência da letalidade do vírus? Quantas ocorrem por conta do colapso do sistema sanitário, apesar de todos os esforços e investimentos para ampliar os atendimentos? Quantas por conta do colapso do Sistema Público, que se instalava progressivamente no decorrer dos anos e, mais ainda, neste momento de pandemia, por conta da negligência do Estado e governantes que deveriam cuidar de todos e garantir o igual direito à saúde e à vida? A resposta à essas questões são fundamentais para adequada avaliação ética do morrer em tempo de pandemia: natural ou evitável? Tudo isso, sem contar os que foram contaminados, sobretudo os profissionais e trabalhadores da saúde, por falta de equipamentos de segurança e condições dignas de trabalho. Nestes casos, a contaminação poderia ter sido evitada.
É claro que a pandemia é um tema complexo e não há sistema capaz de acolher demanda com velocidade e proporção tamanhas. Contudo, não se pode justificar a negligência do Estado que deixou de fazer o que poderia ter sido feito.  Como evitar o colapso do sistema se este já estivesse em quase colapso pela persistente falta de investimentos e ou desvio de recursos destinados à saúde? Com muita razão, a sociedade como um todo, sempre olhou para o nosso SUS com muita atenção, respeito e desejo de melhoramento. Em Niterói, por exemplo, desde 2018 se realiza a “Caminhada em Defesa do SUS”, promovida pela Pastoral da Aids, com o apoio das Pastorais Sociais e vários seguimentos da sociedade organizada que lutam pela vida. Defender o SUS é defender a vida!
Diferentemente da Europa e Ásia, o Brasil teve um tempo maior para se preparar de modo coordenado para o enfrentamento de tão terrível pandemia. Os saberes científicos e tecnológicos devem estar sempre a serviço da vida, o bem maior e absoluto. Saber para poder prever… É claro que o conhecimento de um vírus tão complexo e mortal exige tempo e dedicação incansável por parte dos pesquisadores. Contudo, com o conhecimento que tínhamos associado ao “privilégio” de replicar experiências internacionais bem-sucedidas, volto a me perguntar: o que fizemos? Saber para poder prever… Saber para poder fazer… No caso brasileiro, a politização da pandemia, o distanciamento da vida real e concreta das pessoas e o desgaste imenso de energia com crises criadas, fez com que o foco saísse do campo sanitário e científico e adentrasse perigosa e letalmente no campo da má política, de uma quase necropolítica (política da morte) e, infelizmente, também da estupidez e cinismo. Também me pergunto, podendo estar enganado, por que o Brasil recebeu pouquíssima ajuda internacional e humanitária (médicos, insumos, equipamentos etc) como recebera a Itália e outros países? Onde estão os nossos parceiros? Tudo o que foi feito e adquirido sabe-se ser fruto de muito trabalho e dedicação incansável de gestores e políticos responsáveis pela vida.  É na dor que se reconhece os verdadeiros amigos e defensores da vida! Também na dor, infelizmente, aparecem os aproveitadores insensíveis e maldosos para levar algum tipo de vantagem.
Aqui se confirma o que sempre acreditei e procurei ensinar: a importância da boa política para a organização justa, sadia e solidária da comunidade. Ao desprezar e muitas vezes demonizar a boa política colocamos a vida em risco. Tudo passa pela política! Como sabiamente ensinou o Papa Bento XVI: “a sociedade justa deve ser realizada pela política”. A boa política deveria ter a primazia para poder indicar com clareza critérios e opções para o enfrentamento ético e célere da pandemia. Reconhecemos as boas iniciativas dos poderes executivo e legislativo na formulação de medidas pontuais para o socorro imediato dos vulneráveis, pobres e empresas, a fim de garantir a vida e o emprego. Tudo isso foi e é necessário, porém não suficiente. Está faltando ainda um grande pacto social pela vida, uma ação coordenada e estável entre os Poderes, Ministérios, Instituições, Empresários e Sociedade em geral para que a vida seja agora preservada e no futuro próximo retomada ao novo normal.
É tarde, mas não tarde demais! A responsabilidade de muitos pelas mortes evitáveis está registrada no implacável livro da história; no “Livro da Vida” estão inscritos os nomes dos que se colocaram a serviço da vida, de vários modos, com fortaleza invencível, não obstante tantas situações adversas. Gratidão sincera a todos e todas! “Somos responsáveis por aquilo que fazemos, o que não fazemos e o que impedimos de ser feito” (A. Camus). Vamos ter que responder diante de Deus, de nossa consciência e das gerações futuras pelo genocídio silencioso dos pobres e daqueles que morreram não apenas por causa do vírus, mas também por negligência política que impediu que todos fossem atendidos com dignidade e morressem com dignidade, caso a morte fosse inevitável. Certamente, se assim o fosse, a dor dos familiares seria um pouco menor. E a nossa também!  Estamos falando de mortes evitáveis, de morte social, causada pela persistente injustiça, desigualdade social e incompetência política. Sem contar as pessoas e grupos que se aproveitaram da pandemia para desviar dinheiro público em situação de emergência. Isso é diabólico!
Essa realidade brasileira corrobora nossa tese de que muitas mortes poderiam ter sido evitadas com vontade política, estabilidade no Ministério da Saúde e ações coordenadas. É urgente passar do momento “Babel” para o momento “Pentecostes”, ou seja, da confusão ao entendimento. Chega de conflitos! É hora de silenciar, parar com o ódio e gritaria, buscar o diálogo, discernir com serenidade e agir rapidamente à luz da razão, da ciência e do bem comum. Está em jogo a vida! “A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo para o presente” (A. Camus). O que podemos e devemos fazer? Qual a narrativa que estamos escrevendo ou que será escrita acerca desse dramático período? As narrativas estão vinculadas à vida real e concreta das pessoas ou são apenas ideias sem conexão com a realidade e urgências?
Nesse sentido, a oportuna mensagem do Papa Francisco, para o “Dia Mundial das Comunicações Sociais 2020”, celebrado no Domingo da Ascensão, tem como tema “ A vida faz-se história”.  Diz o Papa: “Desejo dedicar a Mensagem deste ano ao tema da narração, pois, para não nos perdermos, penso que precisamos de respirar a verdade das histórias boas: histórias que edifiquem, e não as que destruam; histórias que ajudem a reencontrar as raízes e a força para prosseguirmos juntos. Na confusão das vozes e mensagens que nos rodeiam, temos necessidade duma narração humana, que nos fale de nós mesmos e da beleza que nos habita; uma narração que saiba olhar o mundo e os acontecimentos com ternura, conte a nossa participação num tecido vivo, revele o entrançado dos fios pelos quais estamos ligados uns aos outros. Não tecemos apenas roupa, mas também histórias: de fato, servimo-nos da capacidade humana de ‘tecer’ quer para os tecidos, quer para os textos. O homem é um ente narrador, porque em devir: descobre-se e enriquece-se com as tramas dos seus dias. Mas, desde o início, a nossa narração está ameaçada: na história, serpeja o mal”.
Precisamos tecer a verdadeira narrativa na unidade e respeito legítimo à diversidade de opiniões, não permitindo que o mal construa narrativas destrutivas e de interesses pessoais. Estamos iniciando a “Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos”, com o tema “Gentileza gera gentileza”, inspirado no texto de Atos dos Apóstolos 28,2, quando Paulo, após sobreviver a um naufrágio e já fora de perigo diz: “Os nativos demonstraram extraordinária gentileza para conosco e acolheram a nós todos, não sem acender uma fogueira por causa da chuva que caía e do frio”. Gentileza gera gentileza! É hora de resgatar a cordialidade, os bons sentimentos, a sadia relação interpessoal, o respeito, a tolerância e acima de tudo o amor que habita em nós. É hora de demonstrar gentileza e atitude de vigilância, tendo consciência de que a “estupidez insiste sempre” (A. Camus). É hora de acender uma fogueira para aquecer e cuidar, nunca para incendiar ainda mais o ambiente. É hora de resistir, recriar, restaurar e “pascalizar” o ambiente atingido pelo vírus, ferido pelo mal e que deve ser reconciliado pelo amor e solidariedade concreta e profética.
Voltemos à questão inicial: mortes naturais e/ou evitáveis? Aos familiares dos falecidos pela Covid-19 e aos familiares das “vítimas” da “mistanásia” nossos sentimentos de pesar, solidariedade fraterna e orações constantes. Não podemos nos acostumar com os números crescentes de mortes no Brasil. Atualmente uma pessoa morre a cada 75 segundos. “Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente, que a morte não me encontre um dia solitário sem ter feito o que eu queria”. Nossa consciência não pode ser anestesiada! Agir é preciso! Responsabilizar é preciso! Reconciliar é preciso! Converter-nos, mais ainda!  Em última instância: “somos todos culpados, por tudo e por todos, e eu mais que os outros” (F. Dostoiévski). Não podemos abrir mão da profecia que integra três dimensões inseparáveis: denúncia, anúncio e vivência pessoal. Denunciar o erro e o mal, anunciar o amor e a verdade e viver o que anunciamos e desejamos. O silêncio acolhedor é necessário, porém o silêncio da omissão pode ser letal. Não podemos nos silenciar, pois um dia teremos que prestar contas a Deus e à história. Urge cobrar aos governantes e autoridades que têm o poder de decisão. Também rezar por eles, como sempre fazemos. Urge também nos indignarmos com os erros e injustiças, porém sem deixar de “nos cobrar” e “de fazer” o que está ao nosso alcance, como cristãos e Igreja Viva. “A Igreja não pode nem deve ficar à margem da luta pela justiça. Deve inserir-se nela por meio da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça não poderá afirmar-se e prosperar. Toca à Igreja, e profundamente, o empenhar-se pela justiça, trabalhando para a abertura da inteligência e da vontade às exigências do bem” (Bento XVI).
Vamos em frente, olhando para o alto e com pegadas firmes e proféticas na estrada da vida: “Homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? (At 1,11). Ainda temos um longo caminho… Fica conosco Senhor!!! “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Mt 28,20). Sigamos comunicando o amor e a verdade! Vem Espírito Santo vem, vem iluminar! Confiemos na Palavra de Jesus: “A vossa tristeza se transformará em alegria. E ninguém poderá tirar a vossa alegria” (Jo 16,20.22). Vamos em frente, no olhar da fé, em pé, com coragem esperança!
Podemos concluir com a oração retirada da Mensagem do Papa acima citada, visto que estamos no mês dedicado a Maria e também prestes a celebrar Nossa Senhora Auxiliadora: Ó Maria, mulher e mãe, Vós tecestes no seio a Palavra divina, Vós narrastes com a vossa vida as magníficas obras de Deus. Ouvi as nossas histórias, guardai-as no vosso coração e fazei vossas também as histórias que ninguém quer escutar. Ensinai-nos a reconhecer o fio bom que guia a história. Olhai o acúmulo de nós em que se emaranhou a nossa vida, paralisando a nossa memória. Pelas vossas mãos delicadas, todos os nós podem ser desatados. Mulher do Espírito, Mãe da confiança, inspirai-nos também a nós. Ajudai-nos a construir histórias de paz, histórias de futuro. E indicai-nos o caminho para as percorrermos juntos.
Com o meu abraço virtual, proximidade, orações e benção,
Dom Luiz Antonio Lopes Ricci – Bispo eleito de Nova Friburgo.

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