08
MAR
2018

Papa Francisco: o papel da mulher na Igreja

A origem da data

Hoje, dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, trazemos uma reflexão sobre a origem da data e a bela reflexão do Papa Francisco, sobre o papel da mulher na Igreja.

Várias explicações históricas para a origem desta data. No Brasil, é muito comum relacioná-la ao incêndio, ocorrido em 25 de março de 1911, na Companhia de Blusas Triangle, quando 146 trabalhadores morreram, 125 mulheres e 21 homens, a maioria de judeus.

O primeiro movimento para os “dias das mulheres” foi a grande passeata das mulheres, em 26 de fevereiro de 1909, em Nova York, aonde cerca de 15 mil mulheres marcharam nas ruas da cidade, por melhores condições de trabalho. Na ocasião, as jornadas para elas poderiam chegar a 16h por dia, seis dias por semana e, não raro, incluíam também os domingos. Ali teria sido celebrado, pela primeira vez, o “Dia Nacional da Mulher”.

Na Europa, também crescia o movimento nas fábricas. Em agosto de 1910, a alemã Clara Zetkin propôs, em reunião da Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, a criação de uma jornada de manifestações. A proposta, segundo os registros que se têm hoje, propunha uma jornada anual de manifestações das mulheres, pela igualdade de direitos, sem exatamente determinar uma data. O primeiro dia oficial da mulher seria celebrado no dia 19 de março, de 1911.

Em 1917, houve um marco ainda mais forte, daquele que viria a ser o 8 de março. Naquele dia, um grupo de operárias saiu às ruas, para se manifestar contra a fome e a Primeira Guerra Mundial, movimento que seria o pontapé inicial da Revolução Russa. O protesto aconteceu em 23 de fevereiro, pelo antigo calendário russo, 8 de março no calendário gregoriano, que os soviéticos adotariam em 1918, e hoje é utilizado pela maioria dos países do mundo. Após a revolução bolchevique, a data foi oficializada entre os soviéticos, como celebração da “mulher heroica e trabalhadora”.

O chamado “Dia Internacional da Mulher” só foi oficializado em 1975, ano em que a ONU intitulou “Ano Internacional da Mulher”, para lembrar suas conquistas políticas e sociais. O dia 8 de março é considerado feriado nacional em vários países, entre eles na Rússia. Na China, as mulheres chegam a ter metade do dia de folga, no 8 de março, conforme é recomendado pelo governo, mas nem todas as empresas seguem essa prática.

Já nos Estados Unidos, o mês de março é um mês histórico de marchas das mulheres. No Brasil, a data também é “comemorada” com protestos, em todas as principais cidades do país, com reivindicações sobre igualdade salarial, e protestos contra o aborto e a violência contra a mulher.

Papa Francisco e o papel da mulher na Igreja

“As primeiras testemunhas da ressurreição são as mulheres. E isso é bonito. E esta é um pouco a missão das mulheres”. É o dia 3 de abril de 2013, quando o Papa Francisco, três semanas após sua eleição à Cátedra de Pedro, pronuncia essas palavras, na segunda audiência geral de seu Pontificado. Em pouco tempo, os fiéis se acostumaram aos pronunciamentos do novo Pontífice, muitas vezes improvisados, em favor das mulheres, do seu papel na Igreja e na sociedade. Por outro lado, Jorge Mario Bergoglio recorda, em muitas ocasiões, as figuras femininas que mais influenciaram seu caminho de fé, como fez com a sua avó, Rosa ou, recentemente, lembrando uma jovem noviça das Pequenas Irmãs da Assunção, que o segurou em seus braços assim que ele nasceu. Um magistério, o de Francesco, sobre o gênio feminino, rico de gestos e palavras: do lava-pés, estendido, pela primeira vez, também às mulheres, às visitas às prisões femininas. Da criação de uma Comissão sobre o diaconato das mulheres ao cada vez maior número de mulheres, nomeadas em cargos importantes no Vaticano, e ainda a escolha de uma mulher, a teóloga Anne-Marie Pellettier, como autora das meditações para a Via-Sacra.

A Igreja é mãe: aprofundar a teologia da mulher

Imediatamente, deve ser enfatizado, que a reflexão do Papa Francisco sobre a mulher se move do ponto de vista teológico. Isso se entende bem quando, em 28 de julho de 2013, respondendo aos jornalistas, no voo papal de retorno da JMJ no Rio de Janeiro, afirma que “uma Igreja sem as mulheres é como o Colégio Apostólico sem Maria”. Francisco enfatiza que “a Igreja é feminina, é esposa, é mãe”. Uma afirmação ainda mais significativa, lendo-a novamente 4 anos depois, à luz da decisão de escrever no Calendário litúrgico a memória da “Beata Virgem Maria Mãe da Igreja”. Em diversas ocasiões, o Papa se queixa de que na Igreja ainda não se fez “uma profunda teologia da mulher”. Ele fez isso em particular, em 12 de outubro de 2013, quando – recebendo os membros do Pontifício Conselho para os Leigos, no dia dos 25 anos da Mulieris Dignitatem de São João Paulo II – afirma que, na Igreja, “é importante perguntar-se que presença tem a mulher”. Para mim, acrescenta, “gosto também de pensar que a Igreja não é a Igreja, é a Igreja. A Igreja é feminino, é mãe” e devemos “aprofundar a nossa compreensão disso”.

Respeitar a dignidade e o serviço das mulheres, em todos os níveis

Não deixa também de denunciar as condições de exploração que tantas mulheres devem suportar. “Eu sofro”, disse o Papa, “quando vejo na Igreja” que “o papel de serviço da mulher desliza para um papel de servidão”. Um tema que muitas vezes retorna no Magistério de Francisco e, com particular vigor, ele o retoma, no discurso de 16 de maio de 2016, à União Internacional das Superioras Gerais. Para elas, Francisco pede a coragem de dizer “não” quando lhes é solicitado “algo que é mais servidão do que serviço”. “Quando se deseja que uma mulher consagrada faça um trabalho de servidão – reitera fortemente – se desvaloriza a vida e a dignidade dessa mulher. Sua vocação é o serviço: serviço à Igreja, onde quer que esteja. Mas não servidão!”. Na mensagem ao Festival da Família, em Riva del Garda, em 2 de dezembro de 2014, faz suas as dificuldades, as fadigas de tantas mulheres que, na vida social, não veem seus direitos reconhecidos. É necessário, exorta o Papa, que a mulher “não seja, por exigências econômicas, forçada a um trabalho pesado” e devemos considerar que “os compromissos da mulher, em todos os níveis da vida familiar, também são um contributo incomparável à vida e ao futuro da sociedade”.

Oferecer novos espaços às mulheres na Igreja e na sociedade

Particularmente significativo, é o discurso que Francesco pronuncia em 7 de fevereiro de 2015, na Plenária do Dicastério da Cultura, centralizado no tema “As culturas femininas: igualdade e diferença”. É tempo, disse o Papa, que as mulheres “se sintam não hóspedes, mas plenamente partícipes das várias esferas da vida social e eclesial”. Esse, adverte, “é um desafio que não pode mais ser adiado”. E enfatiza a urgência de “oferecer espaços às mulheres na vida da Igreja”, favorecendo “uma presença mais ampla e incisiva nas comunidades”, com maior envolvimento das mulheres “nas responsabilidades pastorais”. Alargando o olhar à sociedade, o Papa denuncia a mercantilização do corpo feminino, “as muitas formas de escravidão” a que as mulheres são submetidas e lança um apelo que, para vencer a subordinação, seja promovida a reciprocidade. Sobre o assunto, retorna também na audiência à Pontifícia Academia para a Vida, no dia 5 de outubro der 2017, quando pede para recomeçar “a partir de uma renovada cultura da identidade e da diferença”. Crítica, portanto, “a utopia do neutro”, “a manipulação biológica e psíquica da diferença sexual”. Para Francisco, é necessária “uma aliança entre o homem e a mulher, chamada a tomar em suas mãos, a direção de toda a sociedade”.

A mulher é portadora de harmonia na Igreja e no mundo

Às mulheres, às figuras bíblicas e, em particular, à Virgem Maria, o Papa Francisco dedica muitas homilias matutinas, na celebração na Casa Santa Marta. Em 26 de janeiro de 2015, o Papa se deteve sobre o tema da transmissão da fé. Por que, ele pergunta, “são principalmente as mulheres a transmitir a fé”? A resposta, afirma, deve ser buscada, mais uma vez, no testemunho de Nossa Senhora: “Simplesmente porque quem nos trouxe Jesus é uma mulher. É o caminho escolhido por Jesus. Ele quis ter uma mãe: até o dom da fé passa pelas mulheres, como Jesus por Maria”. Em 31 de maio de 2016, fala sobre as “mulheres corajosas”, que todos os dias dão alegria e enchem a vida dos outros. Em 9 de fevereiro do ano passado, sublinhou que “sem a mulher, não há harmonia no mundo”. É “a mulher, continua, que “traz essa harmonia, que nos ensina a acariciar, a amar com ternura, e que faz do mundo uma coisa bonita”. Uma ternura, que o pequeno Jorge recebeu de sua mãe e de sua avó, e que agora Francisco doa ao mundo.

Por João Dias com Alessandro Gisotti e Silvonei José do Vatican News
Foto: Vatican News
Fontes de pesquisa: Agências O Globo/Reuters/AFP

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