05
DEZ
2018

Dom Ricci reflete sobre o “voluntariado: comprometimento e cidadania”

Voluntariado: comprometimento e cidadania

Hoje, 05 dezembro, comemora-se o Dia Internacional do Voluntário, instituído pela ONU, em 1985, para valorizar e incentivar o serviço voluntário. A Pastoral da Criança, por exemplo, com 35 anos de atuação a serviço da vida, conta com a colaboração de 161 mil voluntários, 88% de mulheres, que acompanham quase 1 milhão de crianças de 0 a 6 anos, bem como famílias e gestantes. Por essa razão, desde 2007, comemora-se, também, na mesma data, o Dia Nacional da Pastoral da Criança. Seus membros são movidos pela solidariedade concreta, que promove e defende a vida, por meio de ações eficientes, feitas por amor a Cristo e com amor.

O fato é que, além da citada Pastoral, existem milhares de voluntários(as) a serviço da vida, agindo de forma discreta, humilde, silenciosa, gratuita e eficaz, no mundo inteiro. São pessoas que fazem a diferença, motivadas pela responsabilidade ética e cuidado para com a vida, tendo consciência de que “o ser humano que sofre nos pertence” (São João Paulo II).

O serviço voluntário é a expressão do amor desinteressado e comprometido com a vida do semelhante, sobretudo aos pobres e vulnerados. O voluntário orienta sua vontade pessoal para a prática do bem, colocando, a serviço do próximo e do bem comum, seu tempo, talentos, valores, profissão e, sobretudo, o afeto que tem poder curador e transformador. Segundo Ban Ki-moon (2009), Secretário Geral da ONU, “o trabalho voluntário é uma fonte de força comunitária, superação, solidariedade e coesão social. Ele pode trazer uma mudança social positiva. Está entre os ativos mais importantes da sociedade.”

O serviço voluntário é, também, fonte de realização humana, pois como disse Jesus, “há mais felicidade em dar do que em receber” (At 20,35). Cristo aponta o serviço generoso como o caminho da felicidade autêntica e duradoura, ao afirmar, após lavar os pés dos discípulos: “felizes serão se o praticarem” (Jo 13,17).

O voluntariado comporta três dimensões: assistencial, promoção humana e transformação. Por essa razão, fala-se hoje em “solidariedade crítica” (L. Selli e V. Garrafa), comprometida e transformadora da realidade. A solidariedade crítica, compreendida como valor, deve ser incorporada      à prática do voluntariado. Assim, a integração das duas faces da solidariedade, isto é, a concreta e a crítica, dribla o assistencialismo, apenas conjugando realização pessoal e incidência social e política.

Nesse sentido, é possível pensar o voluntário como um cuidador da vida, cuja práxis tem forte incidência nos tecidos social, político e cultural. O voluntário, além de fazer, desperta para a cidadania, conscientiza, educa e interage, ocupando espaços estratégicos que antecipam a necessária transformação da sociedade. Por essa razão, cabe informar que a Campanha da Fraternidade do próximo ano traz o tema “Fraternidade e Políticas Públicas” e o lema “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27), cujo objetivo geral é “estimular a participação em políticas públicas, à luz da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja, para fortalecer a cidadania e o bem comum, sinais de fraternidade”. Trata-se de um “convite para uma maior participação dos cristãos na elaboração e implementação de políticas públicas”. O voluntário, por conta de sua experiência e conexão com a realidade dos sofredores e necessitados, pode participar da discussão, elaboração e execução de Políticas Públicas a favor da vida, especialmente dos pobres e vulnerados. A conjugação do trabalho voluntário e a participação ativa dos voluntários, nos Conselhos de Direito, Audiências Públicas e na elaboração de Políticas Públicas, pode contribuir grandemente, para o advento do “inédito viável” (Paulo Freire). Integrar voluntariado e participação cidadã é uma proposta que evita a contraposição do “ou” e realiza a integração do “e”. Aqui é oportuno recordar a proposta integradora de Cristo: “importava praticar estas coisas sem deixar de lado aquelas” (Lc 11,42).

“A Igreja não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem, na luta pela justiça. Deve inserir-se nela, pela via da argumentação racional, e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça não poderá afirmar-se nem prosperar. A sociedade justa não pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela política. Mas toca à Igreja, profundamente, empenhar-se pela justiça” (Bento XVI, Deus Caritas Est, n. 28).

Portanto, o trabalho voluntário não visa substituir as obrigações e responsabilidades do Estado. Sabe-se que não basta apenas cobrar sem nada fazer, e fazer sem nada cobrar. O voluntário é aquele que cobra fazendo, testemunhando que uma outra realidade é possível. Trata-se de uma prática cidadã que, conectada a outras práticas, certamente contribuirá para a construção da nova sociedade, tarefa da política, potencializada e melhorada pelo voluntariado crítico, a favor da vida, com qualidade e dignidade.

Queremos externar nossos sinceros agradecimentos a todos e todas que exercem, com amor e por amor, o serviço voluntário, de diferentes modos, muitos deles silenciosos e no anonimato. Por meio de nossas boas obras, Deus é glorificado, e a “glória de Deus é o ser humano vivo” (Santo Irineu). Parabéns aos voluntários(as), gratidão pela atividade generosa e pelo testemunho de que sempre é possível fazer algo de bom para o semelhante, não obstante as preocupações e inúmeras atividades cotidianas. Vamos celebrar o amor concreto dos voluntários e agradecer ao Bom Deus, fonte de todo Amor duradouro, a vida e a doação de tantos irmãos e irmãs.  Depositemos no Coração de Deus todo o serviço voluntário, pedindo ao Senhor da Messe as virtudes da fortaleza e perseverança, na prática do bem. Como afirma Tomás de Aquino, “para iniciar algo de bom, o ser humano precisa ter confiança e magnanimidade e, para prosseguir, paciência e perseverança”. E assim, “acorremos com nossas boas obras” ao encontro do Senhor que vem, veio e virá, experimentando, concretamente, a presença do Ressuscitado, nos serviços generosos realizados durante a “vinda intermediária” em nossas vidas, razão de nosso agir: “esta vinda intermediária é, portanto, como um caminho que conduz da primeira à última: na primeira, Cristo foi nossa redenção; na última, aparecerá como nossa vida; na intermediária, é nosso repouso e consolação (São Bernardo)”.  Fica Conosco Senhor…                           

+Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo Auxiliar de Niterói.

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