01
MAR
2018

DOM LUIZ RICCI – Desconectar para Conectar-se

Nesse tempo favorável da Quaresma, somos convidados a intensificar a necessária vida de oração, por meio do silêncio e da escuta atenta da Palavra de Deus e de seus apelos para a nossa vida concreta. Buscar a conexão com Deus, por meio da oração, implica acreditar na “força do silêncio contra a ditadura do ruído” (R. Sarah). Precisamos aprender a desconectar para saber como nos posicionarmos de maneira ética, prudente e cristã, quando conectados.

Estar conectado é o imperativo da nossa era digital. Frequentemente, quando estamos em um local sem conexão com a Internet, ou sem sinal de celular, perdemos o chão e nos sentimos sós, embora acompanhados de pessoas que favoreçam relações reais. Será que o virtual substitui o real? Nossa percepção foi alterada? Às vezes, afirmamos sem refletir, diante de uma flor natural: ela é tão linda e perfeita que parece artificial! Logo, o artificial é a referência e não mais o natural. Esta mesma percepção pode ser aplicada às relações humanas. Por que preferimos o virtual ao real? Seria porque desaprendemos a ficar sós? Urge reaprender a conviver com a solidão, mesmo estando situado num contexto digital. Uma realidade não pode eliminar a outra. A proposta de Jesus continua atual: “façam isso, sem deixar de lado aquilo” (Mt 23,23). Ou seja, estejam conectados, mas não deixem de se conectar consigo mesmos, com os outros, com a natureza e Comigo, que sou Deus e conheço vocês por dentro (cf. Jo 2, 24-25). Perdendo a conexão com Deus, perdemos a chance de nos conhecermos melhor.

Santo Agostinho afirmava que encontro com Deus é encontro consigo mesmo e encontro consigo mesmo é encontro com Deus. Dizia mais: “tarde te amei ó beleza tão antiga e tão nova. Tarde te amei, eis que estavas dentro e eu procurava fora”. O que estamos procurando ao navegar na Internet e nas redes sociais? Jack London, em seu livro, “Adeus facebook”, cita uma pesquisa desenvolvida em vários países, cuja pergunta era: “para você, o que é hoje a solidão? A maior parte respondeu que solidão é não estar conectado”. Eis uma realidade preocupante!

Precisamos reaprender a viver e a conviver, sem estarmos conectados. Por isso, o título deste texto: “desconectar para conectar-se”. Trata-se de um aprendizado que exige esforço pessoal e disciplina, para viver com equilíbrio neste fascinante mundo digital. Urge integrar, ou melhor, conectar o real e o virtual, a conexão e a solidão, o tempo ocupado com o tempo ocioso. Não tenhamos medo dos espaços vazios, não preenchidos imediatamente, mesmo porque alguns nunca serão eliminados. A arte de viver é a arte de conviver com os espaços vazios, com a solidão, que pode ser fecunda e muito mais produtiva para a pessoa e para os que estão em sua rede de relações: família, trabalho, amigos e sociedade. Sem este aprendizado de desconectar para conectar-se, verdadeiramente, com tudo e com todos, podemos sofrer, por não saber lidar e conviver com os nossos espaços vazios. Santo Agostinho pode nos ajudar, ao afirmar: “fizeste-nos para Ti e inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Ti”. Encontre um tempo maior para conectar-se com Deus, e no silêncio, ouvir a sua voz juntamente com sua proposta de vida nova e chamado à conversão. Nele não há limites de sinal, e a conexão nunca cai.

Sigamos nosso itinerário quaresmal, como tempo kairótico e kenótico de preparação para a Páscoa do Senhor. Com o meu abraço fraterno, gratidão e bênção.

+ Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo Auxiliar 

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